quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Depressão entre jovens TJs e o excesso de cobranças

Crianças TJs pregando
A matéria de capa da Despertai! de fevereiro de 2017 trás um assunto que já apareceu infinitas vezes nas revistas da Torre de Vigia. E certamente é uma matéria sempre oportuna, pois a depressão é um male frequente nos tempos modernos.

A revista questiona sobre a causa da depressão e cita a seguinte declaração da Organização Mundial da Saúde (OMS):

“A depressão é resultado de uma combinação complexa de fatores sociais, psicológicos e biológicos” (pág. 4).

Neste artigo questiono o seguinte: até que ponto a própria religião TJ contribui para a depressão entre os jovens TJs? 
   

Minha experiência

A primeira vez que tomei conhecimento da palavra “depressão” foi lendo as revistas da Torre de Vigia, lá por volta de 1992 ou 1993, ainda antes de me batizar como Testemunha de Jeová. Nessa época eu me aproximava dos 20 anos e não me lembro de sentir nada do que hoje chamam de depressão, nem mesmo lembro-me de sentir tristezas eventuais. No entanto, depois que me tornei Testemunha, e durante os cerca de 20 anos que permaneci como tal, uma depressão moderada, e às vezes de intensidade considerável, quase sempre estava presente em mim. Foi somente depois de recobrar o controle da minha vida espiritual e emocional, cerca de um ano depois da minha desassociação, é que consegui deixar de sentir depressão. Isso já faz pouco mais de três anos.  Não posso aqui afirmar de forma categórica que a religião das Testemunhas de Jeová contribuiu diretamente para a minha depressão, mas considero isso como uma grande probabilidade. Soma-se a isso declarações de outras Testemunhas e ex-Testemunhas, que dão conta de que, pelas congregações há muitas Testemunhas com depressão, que vivem constantemente sob o efeito de comprimidos.  

Até que ponto a religião TJ é responsável

Se há de fato, entre as Testemunhas de Jeová, um fator que contribui para a depressão, qual seria esse fator? Em sua consideração que fez da declaração da OMS, foi examinado em detalhes o fator biológico, comum a todas as pessoas, mas fatores psicológicos e sociais foram examinados sob o título estresse. Sobre as possíveis causas do estrese, a revista afirma:

Entre as coisas que podem causar estresse e provocar depressão em adolescentes estão o divórcio ou a separação dos pais, a morte de um parente ou amigo, abuso sexual, maus-tratos, acidente grave ou doença (pág. 4,5).

E depois acrescenta:

Alguns pais sobrecarregam seus filhos por esperar demais deles, talvez com relação aos estudos (pág. 5).


Os primeiros são fatores válidos, mas comum a todas as pessoas; a última declaração, apesar de também ser um fator geral, aparentemente não se aplicaria aos pais Testemunhas de Jeová em razão de que, conforme política da Torre de Vigia, a dedicação aos estudos, especialmente a cursos superiores, é bastante desestimulada.


No entanto, é justamente nesse quesito que vejo algum indício que parece justificar a depressão que tive pelo tempo que fui Testemunhas de Jeová. Em geral, eu sentia que nunca conseguia fazer o suficiente para a atingir o padrão de comportamento e atividades estabelecidos pela organização. Sempre me sentia em déficit de serviço de campo, quantidade de estudos dirigidos, a quantidade de publicações passadas era quase sempre inferior à das Testemunhas que me eram mais próximas.  Diante disso, sempre me vinha aquele capítulo de Malaquias onde consta o relato de alguém que oferece para o templo um animal cego e é aconselhado a oferecer ao governador, apenas para ver que o governador é digno de receber sempre o melhor. Esse “melhor” para a organização Torre de Vigia nunca fui capaz de dar, e isso me custou intensos momentos de tristeza, uma vez que acreditava estar em falta com o próprio Deus. Não creio que meu caso seja único, e também não creio que os adolescentes Testemunhas de Jeová estejam livres de cobranças semelhantes ou piores.

Quem já foi Testemunha de Jeová sabe que desde pequena a criança, filha de TJ, é incentivada a participar das atividades da religião. Todas as atividades, de fato, desde assistir às reuniões e fazer comentários, pregar de casa em casa, e participar do estudo familiar com os pais, ler a literatura religiosa e preparar as respostas para dar nas reuniões, ir a todos os congressos e assembleias. À medida que cresce e passa pela adolescência, as atividades religiosas, que o adolescente antes talvez pusesse na conta da diversão, agora passa a sentir que isso lhe é uma obrigação e o batismo é quase impositivo. Também pais, amigos e anciãos começam a falar com ele sobre “privilégios maravilhosos”, como ser pioneiro regular, ancião e até betelita.

E como prova de que os pais e demais Testemunhas não fazem tais cobranças por iniciativa própria, pode-se ler na literatura da Torre de Vigia vários exemplos de crianças e adolescentes que já se batizaram ou se dedicam intensamente às atividades da religião. O que segue são apenas dois exemplos:

Por isso, quando nasci, em 1934, passei a ser sua “filha” especial. O ambiente espiritual privilegiado em que fui criada fez com que me dedicasse a Deus e fosse batizada antes de completar oito anos de idade.(A Sentinela de 1º de outubro de 2000, página 28).
Durante o primeiro ano, nosso filho de sete anos tornou se publicador, e aos nove anos foi batizado. Ele se empenha zelosamente no serviço (A Sentinela de 15 de setembro de 1975, página 566).
Mais recentemente, o Corpo Governante tem investido pesado na doutrinação de crianças, especialmente com as personagens de animação Calebe e Sofia e por meio de artigos especialmente voltados para o público infantil, que são constantemente postados no site JW.ORG.
O resultado de tanta propaganda para esse público é previsível, e o Corpo Governante até se serve das próprias crianças para fazer ainda mais propaganda, como pode ser visto no Anuário de 2017, página 26, ainda não disponível em português:


Kodi, da Inglaterra, diz: "Obrigado por todo o tempo e esforço que vocês dedicam em fazer o jw.org, JW Broadcasting, e os vídeos de Calebe e Sofia. Obrigado por tornar a Bíblia mais fácil de entender. Fui batizado quando tinha oito anos. Quando eu for um pouco mais velho, vou me colocar à disposição para ajudar a construir Salões do Reino! E eu gostaria de trabalhar em Betel. Tenho nove anos agora”.

É uma pena que os sonhos de Kodi tenham poucas chances de se realizarem. Ele não sabe, e nem o Corpo Governante lhe disse, que a época não é de construção de Salões, mas de vender tantos quanto for preciso. Também não é tempo de grande afluxo de trabalhadores voluntários para betel, mas de dispensa de milhares deles. Há um tempo para tudo disse o sábio: tempo para sonhar e tempo para se calar; tempo para ser inocente e tempo para ser ardiloso.

O Corpo Governante não se sentiu constrangido em se servir dos sonhos de Godi; isso não importa, pelo visto. Mas importa que mais e mais crianças sejam induzidas a tomar uma decisão em tão tenra idade, aumentando grandemente as chances de verificarem, à medida que avançarem pela adolescência, que ser Testemunha de Jeová não é o que desejam ser pelo resto da vida. Independente dessa perspectiva tenebrosa, que é de conhecimento do Corpo Governante, pelas redes sociais circulam incontáveis fotos de crianças desempenhando as atividades da religião (as duas fotos desta postagens são exemplos). Isso é uma demonstração incontestável de que sofrem uma grande pressão para seguirem os passos dos pais, que ficarão bem decepcionados se eles decidirem não ser Testemunhas de Jeová. Os filhos, com o objetivo de não decepcionar os pais, talvez se vejam forçados a seguir como Testemunha, porque, de outra forma, caso sejam batizados, poderão causar ainda mais sofrimento em razão das penalidades impostas aos ex-membros – e o resultado disso para muitos deles, (quer abandonem a religião, que passem a viver uma farsa), pode ser a depressão. 

Conclusão

Feito esse exame, vale relembrar a declaração do Corpo Governante, citada anteriormente, sobre uma das razões que podem levar os jovens à depressão: 

Alguns pais sobrecarregam seus filhos por esperar demais deles, talvez com relação aos estudos (pág. 5).

Se o excesso de cobranças aos jovens "do mundo", reconhecidamente existentes em algumas famílias, é de fato um fator que contribui para a depressão, então que dizer do excesso de cobranças aos jovens TJs que é uma constante em quase praticamente todas as famílias de Testemunhas? A atitude do Corpo Governante em desviar o foco para um problema que foge à realidade das Testemunhas é, por si só, uma resposta; sim, a depressão entre os jovens TJs é um fato, e a religião das Testemunhas, segunda a lógica do próprio Corpo Governante, contribui para que muitos deles estejam com depressão.



Gostaria de conhecer melhor as Testemunhas de Jeová?
Então você precisa ler meu livro
Testemunhas de Jeová – o que elas não lhe contam?
Opções de download aqui
  

2 comentários:

  1. Sem dúvida nenhuma,a religião das Testemunhas de Jeová é responsável por uma porcentagem bem considerável não só pela depressão dos adultos como principalmente pelo dos adolescentes.Meu filho,hoje com 30 anos é uma pessoa totalmente introspectiva,e com sérios problemas emocionais.O fato de sempre nunca nos sentirmos à altura dos padrões da religião é ainda piorado com os relatos de irmãos que se gabam de fazer tantas horas no serviço de pregação,ter trocentos estudos e só faltar à uma reunião se estiver de cama,não por qualquer dorzinha de cabeça...ai que raiva quando me lembro disso!

    ResponderExcluir