segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Àqueles a quem só restou a porta de saída

Se você já foi ou é Testemunha de Jeová, pode se lembrar de muitos artigos publicados nas revistas A Sentinela e Desertai!  onde se forneceu muitos conselhos sobre como manter a família unida, tanto como matrimônio, bem como a relação entre pais e filhos.  E certamente, não só pessoas de outras religiões, mas também as famílias de Testemunhas de Jeová precisam desses conselhos. Isso é reconhecido na própria literatura da Torre de Vigia. E um dos motivos que levam alguns pais a se sentirem arrasados é quando um filho, por algum motivo, abandona o lar, o que de certa forma pode fazer com que os pais se sintam desamparados.  

Mas ao abordar o assunto de famílias desfeitas, a Torre de Vigia faz uma combinação de foto e assunto que, à primeira vista, não faz nenhum sentido.  Veja, por exemplo, a foto abaixo:



Ela consta na revista A sentinela de 15 de julho de 2011 e o assunto em questão é um jovem que, por alguma razão, não  quis mais pertencer à religião de seus  pais ou dela foi expulso (ou desassociado).  Pensando nisso, analise a foto mais uma vez. É natural que os pais se sintam decepcionados em razão de o filho não mais pertencer à religião deles, mas por que o filho está tomando a porta de saída, como que saindo de casa para uma viagem ou para morar em outra casa? 

A revista A Sentinela  de 15 de janeiro de 2013 também trás uma foto mostrando a tristeza de pais por terem uma filha longe de casa, a quem só resta admirar uma fotografia.   



O contexto  em que colocaram essa foto também é um caso de alguém que não mais pertence à religião dos pais.

Mas recentemente, em um vídeo que está sendo exibido nos congressos das Testemunhas de Jeová deste ano, uma filha é vista passando pelos pais de mala nas mãos e pegando a porta de saída.



Novamente, o contexto é um caso de alguém que não mais pertence à religião dos pais.  

E a revista A Sentinela de janeiro de 2017, edição de estudo,  trás outra imagem retratando o mesmo cenários das fotos anteriores. E a legenda não deixa dúvida do que se trata.



Então por que deixar de pertencer à religião relaciona-se com deixar a casa?  A impressão que passa é que esses filhos estavam presos, proibidos de sair de casa, e que, ao deixarem de pertencer à religião, a primeira coisa que fizeram foi usufruir a liberdade de poder ganhar a rua e curtir a vida.  Os pais, retratados em momentos de tristeza, parecem se sentir abandonados, uma vez que criaram os filhos com muito amor e agora os veem saindo de casa, deixando-os abandonados.

Diante dessas imagens, não há quem não se sensibilize!

No entanto,  algo mais está envolvido nisso, conforme está registrado  no vídeo abaixo.



Depois de anunciarem a sua expulsão da religião, uma filha escuta do próprio pai que na casa não há mais lugar para ela:

Meu pai explicou que eu não podia continuar morando com eles, já que eu não queria mudar meu estilo de vida.  Ele disse que eu estava sendo uma má influência para meus irmãos mais novos.

Agora, de posse dessa informação, volte e reveja as imagens.  Por que esses filhos estão saindo de casa?  Como se sabe agora, não foi porque foram cruéis ao ponto de abandonaram seus pais, e nem é porque seus pais decidiram, por vingança, se livrarem deles, em razão de não mais pertencerem à religião.  Antes, é porque se trata de uma política adotada pela liderança das Testemunhas de Jeová, que fica lá nos Estados Unidos, e que adotou para si o nome de Corpo Governante.  

Pelo que me parece, foi apenas nestes últimos cinco anos que o Corpo Governante passou a investir neste conceito de que filhos desassociados ou dissociados não podem continuar morando com os pais.  Pelo menos não me lembro de uma imagem anterior a 2011 que retrata filhos saindo de casa e dividindo o quadro com seus pais em pranto.

No entanto, há muito mais tempo o Corpo Governante tem explorado a seu favor vários casos de jovens que foram expulsos de casa por se tornarem Testemunha de Jeová.  Por exemplo, veja o que diz o Anuário de 1989, página 251:



Mas um caso mais explícito e explorado à exaustão consta na revista Despertai! de 22 de julho de 1995. Ela trás a autobiografia de Udom Udoh, da Nigéria, que foi expulso de casa ainda na adolescência, apenas porque decidiu seguir as crenças das Testemunhas de Jeová. Acolhido por um parente próximo, foi logo expulso uma segunda vez, novamente em razão de estar decidido a seguir as suas crenças recém- adotadas. Então, numa situação em que lhe restava apenas as ruas onde morar, foi acolhido pelas Testemunhas de Jeová, que lhe deram casa, comida, trabalho e estudos. Anos mais tarde, Udom teve a oportunidade de ajudar seus familiares, que foram severamente afetados pela guerra civil, como ele conta a seguir:


Toda a biografia de Udom se resume apenas nisto:
Um filho que foi expulso de casa em razão de suas crenças é acolhido por Testemunhas de Jeová. Depois, em razão de consequências da guerra, aqueles que o expulsaram são forçados a engolir o orgulho e aceitar a ajuda desse filho.
Mas por que exatamente isso foi publicado?  Não resta dúvida de que se trata de uma história que expõe de forma clara a intolerância religiosa, e neste particular, praticada pelos próprios familiares. Mas não foi publicada unicamente por isso, pois não seria uma história digna de ser publicada se Udom houvesse sido acolhido por membros de qualquer outra igreja ou adotado por qualquer outra pessoa, ainda que estes lhes tivessem possibilitados todas as conquistas que lhe possibilitaram as Testemunhas de Jeová que o acolheram. Essa história foi contada unicamente porque, pelo modo como começou e pelo modo como terminou, a religião das Testemunhas foi bastante exaltada – e de fato por uma razão mui nobre.
O que destoa disso tudo é que tanto a autobiografia de Udom bem como a série de imagens acima consta em publicações da mesma entidade religiosa, diferenciando-se apenas no fato de que, no primeiro caso, a expulsão, quando praticada por pessoas de outras religiões em protesto contra as Testemunhas de Jeová, ela é vista com reprovação, ao passo que, quando são os filhos de Testemunhas de Jeová que deixam a religião, a expulsão é tida como apropriada e até tacitamente incentivada, como indica o vídeo citado acima.
Como é possível que uma religião que se autoproclama a única aprovada por Deus tenha uma atitude assim tão oposta para casos idênticos?  Como podem condenar algo praticado por outras pessoas e ao mesmo tempo incentivar a mesma prática quando confrontado com as mesmas razões que levam outros a fazer o que condenam?
Por acaso não se dão contam de que pais que expulsam filhos de casa podem posteriormente necessitar urgentemente da ajuda deles?  Em meu livro, no primeiro capítulo, na secção sobre desassociação, coloco a possibilidade de esses pais, quando precisarem da ajuda dos filhos, talvez em caso de doença ou quando em idade avançada, virem a se sentir bastante envergonhados por se verem obrigados a receber a ajuda daqueles a quem expulsaram de casa. Ficou bem demostrado pela experiência de Udom que isso é factível. Que contraste quando comparado com a parábola do bom samaritano, quando encontrou um judeu bastante ferido por assaltantes! Diferentemente do que fizeram seus compatriotas, ele cuidou daquele judeu sem levar em conta suas crenças nem sua nacionalidade. Com base nisso, como fica a situação da Torre de Vigia, que , tal qual aqueles judeus insensíveis, condiciona a que filhos de Testemunhas de Jeová tenham que depender de outras pessoas, pertencentes a outras crenças, para poder dispor de um lar para morar? Sobre isso, vale conferir o triste caso de Masha.



Em 12 de novembro de 2013, anunciou-se à comunidade sua desassociação. A resposta de sua mãe foi: “Bom, perdi meu segundo filho.” Uns anos antes, havia morrido o irmão de Masha. A mãe se mostrou furiosa e violenta acusando-a de ter destruído suas vidas e predisse que sua filha iria viver debaixo de uma ponte, sem amor de classe alguma. Masha se viu no fim de suas forças e buscou ajuda na Oficina da Juventude e no trabalho social de sua escola. Deixou a sua família e nota cada vez mais que não é o mundo quem lhe tira o ânimo, mas sim essa comunidade religiosa e seus próprios pais.

Se cabe aqui a parábola do bom samaritano, e as Testemunhas de Jeová compõem a única religião verdadeira, tal como proclama o Corpo Governante, como conciliar a parábola com a aflitiva situação de Masha? Por mais cruel que seja a resposta, era tem que ser dada, e a situação de Masha é por si só uma resposta. “Pelos seus frutos os reconhecereis”, disse Jesus Cristo. Enquanto pelo mundo inteiro filhos de Testemunhas estiverem sendo expulsos de casa em razão de intolerância religiosa, uma dolorosa resposta soa a tantos quanto estiverem dispostos a escutar.


Conheça melhor as Testemunhas de Jeová lendo o meu livro
Testemunhas de Jeová – o que elas não lhe contam?
Opções de download aqui.



6 comentários:

  1. Olá Lourisvaldo, sempre acompanho suas postagens, Tanto aqui no Blog como no Fórum e deixo aqui meu comentário : Excelente matéria, continue com esse trabalho que eu tenho certeza que já ajudou muita gente a descobrir os erros da Desorganização.
    Abraço.

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  2. Obs:Já criei 5 contas no Fórum e nunca deu certo, sempre consta como usuário inativo,(não sei quais MODS responsáveis pelos cadastros) acho que vou tentar me cadastrar novamente com outro e-mail para ver se funciona.

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    1. Olá!

      Olha, você fazer algumas outras tentativas. Pode usar o recurso "Fale conosco", que consta em um link na parte superior do fórum; e também poderá se manifestar nos grupos de facebook ligado ao fórum, que são estes:

      https://www.facebook.com/extestemunhasdejeova/

      https://www.facebook.com/groups/extestemunhasdejeova/

      Nesses grupos, você pode também procurar fazer contato com Pascoal Naib ou outros administradores ou moderadores do fórum.

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  3. Mesmo sabendo dessas contradições da Torre,sua hipocrisia e maldade,não consigo evitar que meu coração não acelere de indignação.Outro dia consegui raciocinar um pouco com uma amiga Tj.Falei que conhecia muito bem o lado dela,pois já estive lá tbm,portanto aquele sentimento de tristeza dela em relação a mim,por não mais partilhar da mesma crença,não era mais cruel que o meu em não poder lhe dizer ou mostrar as razões que me levaram a tal decisão e que então então eu sofria duplamente...por me compadecer da sua tristeza e por ela não me dar liberdade de expor minhas razões.Obrigada por essa matéria expondo o duplipensar da Torre de vigia,que em muito se parece com o livro 1984,que ainda não tive a oportunidade de ler,mas conheço de muitos comentários a similaridade com a maneira da Torre de Vigia agir,tipo,abominam uma coisa nos outros,mas a usam em seu favor quando lhes é conveniente,exatamente como essa matéria.Abraços!

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  4. No exemplo dos vídeos e fotografias que demonstram que filhos estão deixando seus lares, por não mais desejarem fazer parte, não deveria ser excluídas esse tipo de material. Algum órgão não deveria fiscalizar esses tipos de matérial, antes de chegar ao público.???

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    1. Não, porque isso seria censura prévia. Se alguém ou alguma instituição se sentir injustiçado ou achar que as imagens ou vídeos estão passando uma mensagem falsa, basta entrar em contato comigo e dizer exatamente o que "está pegando". Se tudo estiver ok e eu mantiver os vídeos e imagens e a pessoa continuar insatisfeita, então ela poderá acionar-me judicialmente. É assim que funciona em um país livre.

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