sábado, 23 de maio de 2015

"Volte para Jeová" - uma nova brochura


Dirigida aos inativos, uma nova brochura parece ser mais uma opção adotada pelo Corpo Governante para deter o crescimento cada vez mais lento do número de Testemunhas de Jeová.  Essa preocupação é evidente, e se não forem tomadas medidas drásticas, é possível que, em uma década, possa haver já um crescimento negativo.
Em resumo, a brochura apela para o sentimentalismo como meio principal para atrair o inativo – algo que sempre condenou quando usado por muitas igrejas evangélicas.

No geral, alistam-se três razões para alguém ficar inativo:
1 – ansiedade
2 – mágoas
3 – sentimentos de culpa

Uma quarta razão poderia ser acrescentada:
4 – os graves erros do Corpo Governante

Mas quanto a esta última alternativa, o Corpo considera que não há necessidade de abordá-la.  Nisso ele erra redondamente.  Pois se se guiasse pela Bíblia, deveria reconhecer que o próprio Deus nunca deixou de tentar argumentar com aqueles a quem classificou de apóstatas – os israelitas.  Eu mesmo ficaria lisonjeado se o Corpo se dignasse a me responder algumas breves perguntas. O fato de julgar que isso é desnecessário, a meu ver, vai de encontro à proposta de um pastor amoroso tal como se apresenta. Tudo bem que eu poderia acreditar nas respostas ou considerá-las insatisfatórias, mas deixar de me responder por simplesmente concluir que, no meu estado, já não vale a pena, parece ser um genuíno ato de prejulgamento.

Voltando a tratar da brochura, na página 5 lemos o que seria uma demonstração de como Deus se importa com os inativos:

Ele nos alimenta espiritualmente
Jeová sempre proveu uma variedade de alimento espiritual reanimador na hora certa. Lembra-se de um artigo, discurso ou vídeo que foi uma resposta à sua oração? Não acha que isso foi uma prova de que Jeová se preocupa com você individualmente? 

Não sei em que categoria de retórica se classifica essa argumentação, mas muito me lembra aqueles vigaristas que, para provar-se capaz de ler a mente ou o inconsciente de alguém, afirma ter certeza que “em sua família tem uma pessoa doente”, “tem alguém com problemas financeiros”. Ora, bolas! Se se escreve um artigo sobre como resolver problemas no casamento, são enormes as chances de que, em dez centenas de milhares de casais cristãos, pelo menos alguns milhares terão orado a Deus com relação a algum problema matrimonial pouco tempo antes de receber esse artigo. Requerer que isso seja entendido como respostas a orações, a meu ver,  é fazer pouco da inteligência alheia.

Ainda nessa página 5 é possível ler um chamado a que o inativo se recorde dos primeiro tempos como Testemunha, quando tudo era novidade e tudo trazia alegria. Pelo que sei, quase 100% das Testemunhas passaram por essa fase. Portanto, tanto quanto o argumento anterior, este também é típico de vigarista – um argumento certeiro. É pena que o Corpo não reconheça que esse entusiasmo, mesmo que volte e traga algum inativo ao rebanho, logo tende a se desvanecer.

Na página 6, ao tratar de ansiedade, o Corpo procura convencer ao inativo que o pouco que ele puder fazer, mesmo que seja apenas assistir a uma reunião, já é suficiente para alegrar o coração de Deus.  Mas o inativo talvez saiba que enquanto estava ativo, pelo mais que fazia, parecia ser sempre pouco, não para Jeová, mas para a Organização. 

Sobre isso, certa vez pude ouvir o lamento de uma jovem irmã, pioneira regular, que estava muito sobrecarregada com as tarefas de casa e as tarefas da congregação. Com isso, ainda tinha de enfrentar a incompreensão da família, que não era Testemunha, e a insatisfação dos anciãos, que não via sua dedicação ao serviço de campo. Tudo isso teve um ápice quando ela - pioneira regular – faltou a um dia de congresso para fazer uma prova de vestibular. Os anciãos, considerando o “mau exemplo” da irmã, logo a chamara para se explicar, mas o que conseguiram foi colocar mais um na lista de inativos. Por ser inativa, é bem provável que a nova brochura lhe seja entregue por algum ancião zeloso, mas com certeza essa irmã ainda tem vívidas lembranças do quanto já fez para a Organização e o quanto (e como) esta lhe retribuiu.

A mágoa (página 8) é considerada outro motivo para muitos passarem para a inatividade. Seja lá qual for a razão que leve uns a agir dessa forma, o Corpo não considera nenhuma possibilidade de que essa razão seja válida. Ao agir dessa forma, ele se esquece de um ponto crucial da vida cristã, que é a única maneira deixada por Cristo pela qual seus discípulos poderiam identificados – o amor entre eles.  Minha convivência com as Testemunhas por uns 20 anos, tendo passado por três congregações diferentes e em três diferentes cidades, me deixou uma certeza: o amor cristão entre as Testemunhas é relativamente frágil. É verdade que há exceções, mas, no geral, cada um cuida da sua própria vida e mesmo aqueles da dianteira estão ocupados demais para dar atenção a alguém que muitas vezes quer tão pouco, tanto quanto apenas alguns minutos de atenção. Pode ser que alguém entre na inatividade por uma questão banal, mas razões legítimas existem, apesar de o Corpo lamentavelmente deixar de reconhecer.

Por último, o sentimento de culpa. Essa é com certeza uma realidade entre as Testemunhas – e novamente a razão principal não é reconhecida.  Quando a Testemunha se deixa convencer que o Corpo tem razão absoluta em tudo o que diz, então toda a sua vida vai girar em torno do quanto pode fazer para viver à altura do que o Corpo define como padrão adequado para o cristão. E como ninguém é perfeito, os erros podem ir se acumulando a tal ponto que o desânimo cai como uma pedra sobre a consciência. E nisso, logo a Testemunha diminui sua atividade no campo, diminui a assistência às reuniões, o que logo a faz se sentir que não está fazendo “o máximo para Jeová” e, portanto, passa a se sentir indigna de seu amor e proteção. Foi talvez num estado como esse (enquanto convivia entre os fariseus) que uma prostituta se chegou a Jesus e lavou com lágrimas os pés dele – tudo porque tinha a certeza que não seria condenada.  Uma Testemunha inativa não tem hoje a pessoa de Jesus Cristo, mas apenas os anciãos. E ela talvez saiba que, mesmo que o seu pecado não resulte em desassociação, ele será sempre uma nódoa em sua vida, uma vez que estará sempre ali, na mente dos anciãos, os quais, para ela, talvez não sejam os melhores exemplos quanto manter confidências.

Em conclusão da brochura, veja que argumento foi usado para mostrar ao inativo que Deus se importa com ele:

Jeová quer que você volte para ele. Por que você pode ter certeza disso? Considere o seguinte: esta brochura foi preparada cuidadosamente com muita oração. Talvez você tenha ficado sabendo dela por meio de um ancião ou de outro irmão na fé. Daí você sentiu vontade de lê-la e de agir de acordo com sua mensagem. Tudo isso é prova de que Jeová não se esqueceu de você. Pelo contrário, ele bondosamente o está atraindo de volta. — João 6:44. (página 13)..

Durante décadas se fez muitos livros, brochuras e revistas e se tratou de todo tipo de assunto, tanto que nessa brochura não se achou nenhum argumento novo par atrair um inativo. Então por que deveria essa brochura ser encarada como prova de que Deus se importa com ele? Se o Corpo é guiado por Deus, como argumenta, por que esse amor divino pelos inativos só foi manifestado agora? Estou propenso a crer que esse é mais um argumento para justificar mais uma maneira de combater o lento crescimento de Testemunhas. Considerando a possibilidade de que essa conclusão seja verdadeira, seria muito bom ouvir de Deus o que ele acha disso. 

Este artigo foi discutido no fórum Extestemunhasdejeova.net.



4 comentários:

  1. Meu pai me indicou para fazer o download da brochura pelo jw.org mas não estou encontrando, poderiam me ajudar? Obrigado.

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    1. Acesse o link a seguir

      http://extestemunhasdejeova.net/forum/viewtopic.php?f=12&t=17096

      Ao acessar, procure o comentário de Fabio555.

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  2. Interessante, gostaria de ler....


    Um abraço!

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  3. Ótimo artigo Lourisvaldo!!! Também acredito que faltou o quarto motivo que você mencionou no artigo. Na hipótese de admitirem certos erros graves do passado que reflitam no presente deste movimento, isto seria um má publicidade contra eles mesmos, então a hipótese de uma "mea-culpa" é remota.

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